Se a ideia é sentar à mesa para discutir transição energética e neutralidade de carbono, não deixem de chamar a indústria de petróleo e gás. Sem ela, não tem conversa. Esse foi o raciocínio apresentado pelo presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Thiago Barral, que participou nesta semana de um evento online organizado pelo Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP). Para Barral, os investimentos e o capital do setor de O&G serão as pedras angulares para financiar a inovação e as novas tecnologias. Ele ainda completou dizendo que a transição energética “não existe sem a indústria de petróleo e gás”.

Para o presidente da EPE, o mercado de petróleo é um ator fundamental para que os países possam alcançar o equilíbrio em termos de combate às mudanças climáticas e também na busca por neutralidade de carbono. Além disso, ele vê o segmento petrolífero se adaptando a essa nova realidade de geração de energia com menos emissões: “Essa indústria vem reconhecendo isso [a transição energética] e vem se metamorfoseando também, de uma forma planejada. Eu não tenho dúvida de que a indústria do petróleo vai se reinventar nos próximos 30 anos e vai desenvolver novos modelos de negócios”, afirmou.

Barral lembrou ainda que as grandes majors já estão propondo metas de neutralização de carbono do petróleo, o que pode representar uma boa oportunidade para o nosso país. O líder da EPE acredita assim em um ganha-ganha: de um lado, o Brasil seria o destino de investimentos em projetos ecológicos, com benefícios para o meio ambiente; e, do outro, as empresas alcançariam suas metas de neutralização, sem necessariamente ter que fazer o uso de tecnologias muito caras para captura de carbono.

O Brasil pode e deve ser um destino de investimentos em Bio-CCS [Bio-energy with carbon capture and storage]. À medida que essas grandes empresas internacionais queiram ter estratégias de abatimento de neutralização do carbono do petróleo, o Brasil tem oportunidades incríveis para investimento em reflorestamento, serviços ecossistêmicos, recuperação de áreas e florestas plantadas”, projetou. “O petróleo brasileiro pode ter essa marca, de ser mais renovável do que outros. Isso será um prêmio de qualidade que o país pode, eventualmente, oferecer neste contexto de busca de mercados consumidores”, acrescentou.

OS RISCOS NO CRESCIMENTO DA PRODUÇÃO E DA EXPORTAÇÃO DE PETRÓLEO PELO BRASIL

Sobre as projeções da EPE em relação ao quase certo aumento da produção de petróleo no Brasil nos próximos anos, Barral disse que o novo Plano Nacional de Energia (PNE) 2050 reconhece esse potencial. Contudo, o mercado doméstico não deve absorver a totalidade desse crescimento, o que significa que o Brasil aspira se tornar um exportador de petróleo.

Por outro lado, o presidente da EPE levanta dois riscos associados a esse cenário. O primeiro deles é o ritmo da transição energética. Em uma trajetória mais acelerada, haverá uma conjunção de fatores desfavoráveis: aumento de produção de petróleo por outros países e demanda pelo insumo estacionada ou decrescente. “Isso significa um risco para essa estratégia de país exportador”, avaliou.

Além disso, Barral ressaltou a disputa de mercado entre grandes produtores, como Arábia Saudita e Rússia. Com a competição cada vez mais acirrada entre nações exportadoras, podem acontecer eventos de guerras de preços, como a que aconteceu no início deste ano. “É uma série de fenômenos que vão afetar essa estratégia de exportação. É uma oportunidade, mas também tem riscos associados”.