Captura de tela 2020-09-30 211314

Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) iniciava o seu julgamento sobre o processo de venda das refinarias da Petrobrás, representantes da indústria de óleo e gás debateram o futuro desse mercado no Brasil, em um possível cenário com menor presença da estatal. Contudo, a venda de oito refinarias da empresa será apenas um passo para o desenvolvimento da atividade do refino no país. A expansão da nossa capacidade de processamento não virá de imediato, pois é um negócio que envolve muitas outras variáveis. Essa foi a visão compartilhada pelos participantes do Circuito Brasil Óleo e Gás, webinar realizado pela Organização Nacional da Indústria do Petróleo (ONIP) e pela Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Petróleo (Abpip), em parceria com a Firjan.

Um dos convidados desta edição do evento, o CEO da PetroRecôncavo, Marcelo Magalhães, disse que o primeiro passo para expandir a atividade de refino no país é diminuir a presença da Petrobrás nesse setor. “Monopólio não é bom para ninguém, em lugar nenhum do mundo”, opinou o executivo. Na visão de Magalhães, os passos seguintes são os desinvestimentos da estatal em ativos maduros e, ao mesmo tempo, a escalada na produção offshore. “De um lado, temos o desinvestimento em águas rasas e, do outro, o próprio pré-sal com sua enorme produtividade. Na medida em que a Petrobrás possa focar ainda mais no pré-sal, vamos caminhar para ter 5 milhões ou 6 milhões de barris de produção interna. Quando isso ocorrer, não fará o menor sentido que exportemos petróleo bruto ao invés de refinar no país”, acrescentou.

O CEO da PetroRecôncavo alertou ainda que o Brasil precisa provar também que não haverá mais interferência governamental na formulação de preços de derivados. “Ainda temos que nos livrar do estigma de influência política nos preços dos derivados. Isso terá que ser consolidado. Esse primeiro desinvestimento [da Petrobrás em refino] é um teste para saber se vamos conseguir resistir a isso”, afirmou.

Revap

O segundo participante a tratar do tema foi Armando Cavanha, da PUC-Rio, alertando que o refino é muito sensível na questão de margem de lucro. Ele citou ainda o exemplo dos Estados Unidos – que têm uma centena de refinarias de variados tamanhos – para fazer uma comparação com o cenário do nosso país. “O molde do Brasil, contudo, é diferente, com um sistema colaborativo de refino. Uma empresa só montou um sistema de refino, onde uma coisa colaborava com a outra. Hoje, estamos rompendo isso, com metade sendo competitivo [se referindo às unidades que a Petrobrás está vendendo] e outra metade no Sudeste. É uma equação abruptamente mudada. Essa adaptação tomará um tempo”, projetou.

Ainda comparando o modelo do Brasil com o do exterior, Cavanha afirmou que as refinarias estrangeiras têm tecnologias um pouco mais atualizadas, principalmente as de porte maior. Com isso, elas conseguem produzir com preços mais baixos. “Enquanto isso, para levar derivado da Revap para a Repar, por exemplo, são gastos US$ 20 por caminhão. Então, temos inequações ainda não resolvidas no refino. [O desinvestimento] é o primeiro passo. Isso vai desdobrar em outros movimentos que não conhecemos ainda: seria o caso, por exemplo, das refinarias de menor porte, mais próximas ao centro de produção, que vão nascer no onshore, com certeza”, opinou.

Refap2-Dig39278

Já o executivo José Fernandes de Freitas, também presente no webinar, vê sim o cenário atual do Brasil como uma oportunidade de expandir a capacidade de refino. O país, como se sabe, é um grande exportador de petróleo e importa 25% das suas necessidades de derivados. Para Freitas, ao invés do nosso petróleo cruzar o mundo inteiro, com grandes custos de frete, até chegar ao mercado asiático, faria mais sentido que o insumo pudesse ser refinado e consumido no próprio país. “Só que o refino, como disse o Cavanha, é um negócio extremamente complexo, com margens extremamente apertadas. Os investimentos são altos e os prazos de retorno também são grandes”, ponderou.

O executivo diz ainda que a sociedade brasileira deve definir qual o molde deseja para o setor de refino – um modelo centralmente planejado ou um onde o mercado se regule sozinho. “Somos um mercado consumidor importantíssimo dessa área [de refino] e um grande produtor de petróleo. Se queremos capitalizar isso, teremos que fazer uma avaliação muito clara de qual modelo adotaremos para esse processo. Ao vender parte dessas refinarias sem que esse back office esteja adequadamente regulado, acho muito difícil que tenhamos investimentos significativos nessa área”, opinou.

O webinar teve ainda a moderação da diretora geral da ONIP, Karine Fragoso, do Vice-Presidente Executivo da ONIP, Marcio Felix, e do Secretário Executivo da ABPIP, Anabal Santos. O Circuito Brasil Óleo e Gás tem o objetivo de  apresentar, em cada edição, o cenário brasileiro de O&G, destacando os principais dados, análises e perspectivas.