Raphael Moura

Hoje, 29 de setembro, é o Dia Mundial do Petróleo. A data se torna ainda mais especial em um ano como o atual. A indústria de óleo e gás já estava diante de um enorme desafio – se posicionar em um mundo que caminha para a transição energética e baixa emissão de carbono. Mas quis o destino que 2020 trouxesse um personagem a mais nesse já complicado tabuleiro de xadrez: o coronavírus. A pandemia sacudiu com força o setor de óleo e gás, colocando ainda mais dúvidas sobre como será o futuro desse mercado. Assim, hoje o Petronotícias convida seus leitores para refletirem sobre o destino desta indústria nos anos que nos aguardam pela frente. Para isso, conversamos com o diretor-geral interino da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Raphael Moura, que acredita que o setor continuará desempenhando um papel relevante e indispensável no segmento energético pelas próximas décadas. “Não podemos afirmar exatamente quando ocorrerá o pico da demanda, ou até mesmo se já ocorreu, mas ainda é correto afirmar que a indústria do petróleo e do gás natural seguirá, no curto e médio prazo, como fundamental para a segurança energética e para o crescimento econômico”, declarou. O diretor lembra que setores em que a eletricidade pode substituir o petróleo permanecem, até agora, limitados. “Isso porque certas qualidades dos combustíveis fósseis são difíceis de replicar, como sua alta densidade energética e capacidade calorífica, com preço reduzido”, ponderou. Por fim, Moura afirma que órgãos reguladores, como a ANP, deverão trabalhar para criar um ambiente regulatório atrativo e uma agenda de sustentabilidade para a indústria de petróleo.

Nesse Dia Mundial do Petróleo, o que essa indústria tem a comemorar em relação aos seus recentes feitos no Brasil?

Muita coisa. Os últimos anos marcaram a retomada da Indústria de Óleo e Gás no Brasil. No upstream, retomamos os leilões, adequamos nossa regulação para o novo contexto e contribuímos para recolocar o Brasil no mapa dos investimentos estrangeiros. Desde 2017, realizamos 11 rodadas, incluindo o 1º ciclo da Oferta Permanente, contratamos mais de 70 mil km² em área exploratória (quase duas vezes a área da Suíça), recolhemos R$ 112 bilhões em bônus de assinatura e garantimos, pelo menos, R$ 7 bilhões de reais em compromissos exploratórios. Adicionalmente, nossa produção de óleo e gás atingiu, esse ano, o recorde de 4 milhões de barris de óleo equivalente por dia, um aumento de aproximadamente 20% em relação a 2017, graças ao pré-sal. Nossa exportação também subiu de 997 mil barris por dia em 2017 para 1.85 milhões de barris por dia em meados de 2020. A produção entre 2017 e 2019 anos gerou por volta de R$146 bilhões em royalties e PE [participações especiais] para a nossa sociedade brasileira e garantimos R$ 5,3 bilhões em investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação no mesmo período.

No midstream e no downstream, houve um aumento de 9% na extensão de dutos em operação, 10% na capacidade de armazenamento em terminais e 13% na capacidade de armazenamento em bases de distribuição entre 2017 e 2019. Adicionalmente, nesses segmentos tivemos importantes avanços rumo a um mercado mais aberto, dinâmico e competitivo, principalmente em função do Plano de Desinvestimento da Petrobrás e das discussões em torno do novo marco regulatório do gás natural.

Ou seja, temos muitos feitos recentes a comemorar, e a ANP segue trabalhando para que a regulação posa contribuir para esse viés de crescimento.

E olhando para o futuro? Qual será o destino da indústria do petróleo em um horizonte onde tanto se fala de renováveis?

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Estamos vivendo um cenário de diversificação das fontes de energia, com o crescimento das energias renováveis, como a solar e a eólica, bem como o incremento da eletrificação. Entretanto, a Indústria do Petróleo e Gás Natural continuará desempenhando um papel relevante e indispensável no setor energético, pelas próximas décadas. De acordo com a Resenha Energética 2019 publicada pelo MME, o petróleo e o gás natural respondem por aproximadamente 47% da Oferta Interna de Energia no Brasil (34,4% o petróleo e 12,2% o gás natural). Mundialmente, essa indústria é responsável pela geração de 54% da oferta de energia global (31,5% petróleo e 22,8% gás natural).

Previsões de evolução da matriz energética, como as realizadas pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), publicadas em 2019, mostram que o petróleo e o gás natural ainda responderiam por mais de 50% da oferta de energia mundial em 2040 (28,2% petróleo e 25,2% o gás natural), com destaque para o aumento da participação do gás natural na matriz energética. Previsões da IEA (Agência Internacional de Energia) em 2019 também apontam percentuais similares para o cenário onde haveria a manutenção das políticas públicas existentes e anunciadas (Stated Policies).

Cenários mais disruptivos foram apresentados em 2020 pela BP (British Petroleum), considerando uma redução das emissões de carbono no uso da energia em relação a 2018, variando em torno de menos 10% (cenário business as usual) a menos 95% (cenário onde conseguiríamos zerar as emissões líquidas em 2050). Mesmo nesses cenários, o petróleo e o gás natural não desaparecerão da matriz energética de uma hora para outra, respondendo por algo entre 50% a 20% da oferta de energia em 2050.

A velocidade da substituição dos combustíveis fósseis por renováveis depende, principalmente, das políticas governamentais, das escolhas da sociedade, da evolução tecnológica e das decisões de investimentos. Entretanto, os setores em que a eletricidade (onde há maior aplicação das energias renováveis) pode substituir o petróleo permanecem, até agora, limitados. Isso porque certas qualidades dos combustíveis fósseis são difíceis de replicar, como sua alta densidade energética e capacidade calorífica, com preço reduzido. Para descarbonizar processos que dependem dessas qualidades, é preciso combustíveis com baixo teor de carbono e que tenham qualidades próximas dos combustíveis fósseis, com preço competitivo. Atualmente, setores como petroquímicas, indústrias de base (cimento e aço) que demandam altas temperaturas, aviação, transporte marítimo e até transportes de carga pesada de longa distância, ainda não enxergam substitutos rápidos ao petróleo, que sejam comerciais a ponto de serem adotados em larga escala. Adicionalmente, tecnologias substitutivas, como o hidrogênio, ainda precisam ser ampliadas, para atingir o estágio de maturação e implantação em massa.

Uma pergunta de um milhão de dólares: a era do petróleo está chegando ao fim? Ou quanto tempo ela ainda vai durar?

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O petróleo continuará presente na sociedade moderna por muitos anos. Entretanto, com o declínio da demanda, em tese, levará à desvalorização da commodity, encerrando a era do “ouro negro”. A maior parte dos cenários publicados em 2019 aponta o pico de demanda acontecendo entre 2030 e 2050, embora tenhamos previsões indicando pico da demanda no platô dos 100 milhões de barris por dia, o que foi vivenciado no período pré-pandemia. Não podemos afirmar exatamente quando ocorrerá o pico da demanda, ou até mesmo se já ocorreu, mas ainda é correto afirmar que a indústria do petróleo e do gás natural seguirá, no curto e médio prazo, como fundamental para a segurança energética e para o crescimento econômico. Em paralelo, é importante implementar as medidas legais e as ações regulatórias necessárias à consolidação de um ambiente mais atrativo aos investimentos, para que os nossos recursos sejam convertidos em riquezas e empregos para a sociedade brasileira, nesse que pode ser o último ciclo da indústria.

Qual será o grande desafio para os órgãos reguladores dessa indústria nesses tempos de transição?

O maior desafio dos órgãos reguladores será criar um ambiente regulatório que garanta a atratividade e competitividade de suas respectivas indústrias. Isso porque, no futuro, restarão apenas os projetos de petróleo mais resilientes e competitivos. Considerando os atuais patamares de preço e a aceleração das discussões relacionadas à transição energética, as empresas de O&G, hoje, já estão discutindo sua estratégia de longo prazo e direcionando investimentos para as oportunidades com maior probabilidade de retorno. Adicionalmente, vale lembrar que os países competem mundialmente por investimentos dentro da indústria de O&G e, agora, com outras fontes de energia, incluindo as renováveis. Portanto, os órgãos reguladores da indústria do petróleo e os respectivos governos têm o desafio de criar uma regulação que reduza a percepção dos riscos above ground e crie um ambiente para que haja maior atratividade das suas respectivas oportunidades.

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No caso específico do Brasil, onde apenas 5% das nossas áreas sedimentares estão contratadas, 30 mil poços estão perfurados, 10% dos volumes descobertos foram produzidos e 25% da população vive abaixo da linha da pobreza, é importante termos um ambiente atrativo, de competitividade e de diversidade de agentes, sob pena dos recursos não serem aproveitados e ficarem no subsolo, sem gerar qualquer riqueza para a sociedade.

Outro desafio dos órgãos reguladores é garantir uma agenda de sustentabilidade para a Indústria de Petróleo, que a insira em um futuro de baixo carbono. Eficiência energética, CCS – Captura e Armazenamento de Carbono e a redução de perdas e queima de gás, por exemplo, são temas que estarão em pauta, com foco na redução de emissões de carbono de nossa indústria. Só assim, garantiremos o pleno alinhamento aos objetivos climáticos e manteremos a licença social da Indústria de O&G para operar.

Acredita que os possíveis efeitos da pandemia (menos viagens, deslocamentos reduzidos…) podem acelerar a transição energética?

Atualmente, cerca de 60% da demanda por petróleo se refere à mobilidade e aviação, de acordo com a IEA. Ainda é cedo para afirmar o quanto desse percentual poderia ser afetado por mudanças no comportamento humano pós-pandemia, especialmente no que tange ao deslocamento.

Importante mencionar que o investimento global em energia deve cair cerca de 20% em 2020 (US$ 400 bilhões), segundo a IEA, o que afeta não só a Indústria do Petróleo, como também as indústrias de renováveis, mesmo que em menor escala. Globalmente, a IEA espera um declínio de 17% na implantação de energia solar fotovoltaica e de 8% na implantação de energia eólica em 2020.