núncio acontece enquanto o Reino Unido sedia importante cúpula sobre o clima sem a participação do Brasil, classificado como ‘retardatário’ ao lado da Rússia e da Austrália.

Por BBC

12/12/2020 12h17  Atualizado há um dia


Primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, em sessão no Parlamento nesta quarta-feira (11) — Foto: UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via Reuters

Primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, em sessão no Parlamento nesta quarta-feira (11) — Foto: UK Parliament/Jessica Taylor/Handout via Reuters

Anfitrião de uma importante cúpula global sobre o clima, o governo do Reino Unido anunciou neste sábado (12) que vai parar de apoiar diretamente projetos de combustíveis fósseis no exterior.

Em outras palavras, a mudança significa que o Reino Unido não financiará mais projetos de exportação ou produção de petróleo, gás ou carvão pelo mundo, informa o correspondente Matt McGrath, da BBC News.

O anúncio acontece no momento em que Reino Unido, França e ONU realizam uma reunião virtual sobre o clima ainda neste sábado (12).

Aproximadamente 75 líderes mundiais devem participar do encontro, que acontece 5 anos depois da assinatura do acordo de Paris, que reúne compromissos globais de reduções de emissões de gases poluentes.

Historicamente visto como uma importante liderança global sobre o tema, o Brasil, até a noite de sexta-feira (11), constava fora da programação por não ter apresentado metas ambientais consideradas suficientemente ambiciosas, segundo agências internacionais.

Nações como Rússia, EUA e México também não estão na programação.

O fato de o governo do Reino Unido apoiar projetos de combustíveis fósseis no exterior por meio de financiamento à exportação, financiamento de ajuda e promoção comercial gera controvérsia há anos.

À medida que o país se afastou da exploração de carvão, petróleo e gás “dentro de casa”, o financiamento de projetos do tipo no exterior era descrito como “hipócrita”.

Agora o primeiro ministro Boris Johnson concordou em encerrar esta prática o quanto antes.

“As mudanças climáticas são um dos grandes desafios globais de nossa época e já estão ceifando vidas e meios de subsistência em todo o mundo. Nossas ações como líderes devem ser movidas não pela timidez ou cautela, mas pela ambição em escala verdadeiramente grande”, disse Johnson.

Há cinco anos o acordo de Paris foi assinado e comemorado com alegria na capital francesa — Foto: EPA

Há cinco anos o acordo de Paris foi assinado e comemorado com alegria na capital francesa — Foto: EPA

“É por isso que o Reino Unido recentemente abriu caminho com um novo e ousado compromisso de reduzir as emissões em pelo menos 68% até 2030, e tenho o prazer de dizer hoje que o Reino Unido encerrará o apoio do contribuinte a projetos de combustíveis fósseis no exterior assim que possível.”O anúncio foi feito no momento em que o Reino Unido hospeda uma cúpula sobre ambições climáticas.

O encontro virtual está acontecendo depois que a pandemia resultou no adiamento da Conferência climática que aconteceria em Glasgow neste ano.

Reunião de Cúpula sem o Brasil

O Reino Unido diz que a curta cúpula deste sábado (12), voltada para a ação, deve valorizar novos compromissos firmados por países.

Entre os participantes estão o Secretário-Geral das Nações Unidas António Guterres e o Presidente Emmanuel Macron da França. O Papa Francisco também falará no encontro.

O Reino Unido apresentará seu novo compromisso sobre projetos de combustíveis fósseis no exterior, bem como uma nova meta de corte de carbono de 68% até 2030, anunciada na semana passada pelo primeiro-ministro.

Ambientalistas alertam que proposta do governo no acordo do clima pode aumentar emissões

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A União Europeia também apresentará uma nova meta para 2030 de um corte de 55% nas emissões, acordada após longas negociações nesta semana.

A China e a Índia também participarão, embora não ainda esteja claro o alcance de seus novos compromissos.

Como o Brasil, a Austrália também não deve participar do encontro, assim como Rússia, África do Sul e Arábia Saudita .

“De um ponto de vista processual simbólico, é bom ter todos a bordo”, disse o professor Heike Schroeder, da Universidade de East Anglia.

“Mas, de uma forma proativa, criando algum tipo de abordagem de senso de urgência, também faz sentido dizer que ‘só queremos ouvir de você se tiver algo de novo a dizer’.”

Anúncios concretos

O Reino Unido quer que a reunião se foque em países dispostos a fazer novos anúncios sobre emissões-zero, ou que apresentarão planos inéditos para 2030.

Uma série de economias menores e nações insulares estarão entre as que apresentarão novos planos na cúpula.

Ventos fortes levaram cinza e fumaça dos incêndios florestais que atingiram a Austrália e deixaram o céu laranja em New South Wales, onde moram Nancy Allen e Brian Allen. — Foto: REUTERS/Tracey Nearmy

Ventos fortes levaram cinza e fumaça dos incêndios florestais que atingiram a Austrália e deixaram o céu laranja em New South Wales, onde moram Nancy Allen e Brian Allen. — Foto: REUTERS/Tracey Nearmy

“Se os países menos desenvolvidos podem fazer isso, os países mais ricos também podem”, disse Andrew Norton, do Instituto Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento.

“Os grandes emissores, incluindo retardatários como Rússia, Austrália e Brasil, precisam acelerar o ritmo e tomar medidas confiáveis ​​para fazer os cortes que são urgentemente necessários para manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 ° C.”

Os cinco anos desde que o acordo de Paris foi adotado foram os mais quentes já registrados, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), e as emissões continuaram a se acumular na atmosfera.

Nesse período, muitos países e empresas iniciaram o processo de descarbonização. O progresso que eles fizeram agora precisa ser reconhecido e incentivado, diz a ex-chefe do clima da ONU, Christiana Figueres.

“Para este sábado, eles estão se concentrando na redução de emissões, e isso é bom porque o progresso que foi visto na economia real deve ser refletido e incentivado ainda mais por esses compromissos adicionais.”

Frustração econômica

Uma área que provavelmente não registrará qualquer progresso nesta reunião é a questão financeira. Os países ricos prometeram mobilizar US$ 100 bilhões por ano a partir de 2020 sob o acordo de Paris – mas os compromissos em dinheiro simplesmente não estão se materializando.

O furacão Iota esteve entre o número recorde de tempestades que devastaram as Américas neste ano — Foto: Reuters

O furacão Iota esteve entre o número recorde de tempestades que devastaram as Américas neste ano — Foto: Reuters

Apesar dessa grande falha, muitos membros da comunidade internacional do clima abordarão esta reunião com uma atitude positiva.

Os últimos seis meses registraram metas de longo prazo estabelecidas pela China, Japão e Coréia – e a eleição de um presidente amigável à questão do clima nos Estados Unidos.

“Havia um clima maravilhosamente propício antes de Paris. E acho que agora estamos novamente em uma fase em que as coisas se tornam viáveis”, disse Jochen Flasbarth, secretário de Estado do Ministério Federal do Meio Ambiente da Alemanha.

“Espero que outros que estão um pouco afastados voltem e estejam também empenhados.”

“Portanto, estou bastante otimista no final deste ano.”

Análise: Roger Harrabin, analista ambiental

O apoio entusiasmado de Boris Johnson a cortes mais rígidos em emissões segue uma tradição de liderança britânica em mudanças climáticas.

Os especialistas do país desempenham papel central no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, aconselhando sobre ciência e política.

Na política, o Reino Unido foi um personagem importante nas negociações da convenção sobre o clima realizada no Rio de Janeiro em 1992. E o vice-primeiro-ministro John Prescott foi duro em reuniões que viraram a noite para impor o protocolo climático de Kyoto, em 1997.

Depois disso, o Reino Unido aprovou sua histórica Lei de Mudanças Climáticas, determinando cortes progressivos de emissões, e formou um Comitê de Mudanças Climáticas para mostrar como fazê-lo.

O Reino Unido também reforçou a ambição climática da União Europeia, como quando um grupo de líderes empresariais e o Príncipe Charles convenceram políticos de que CEOs influentes apoiariam medidas de restrição em emissões de gás carbônico.

Sobre a economia, o relatório Stern, de 2006, mostrou que ignorar as mudanças climáticas era mais caro do que enfrentá-las.

Recentemente, o ex-chefe do Bank of England, Mark Carney, argumentou que os bancos deveriam rejeitar empresas ligadas a combustíveis fósseis porque elas constituem um risco de investimento.

Nenhum outro país tem um histórico como este.